O Valete
"Já se aproximavam das onze horas da noite quando três homens encontravam-se silenciosos, sentados em cadeiras de plástico numa sacada de alguma praia do litoral sul-brasileiro. Jaime enchia mais um copo de cerveja apoiado no vão da sacada enquanto olhava em direção à praia, tendo sua visão interceptada por duas grandes amendoeiras.
- É amanhã que eu corto essas árvores – desabafava ele, mais para cortar o silencio.
Jaime era do tipo nervoso, mas seu toque de humor animou a casa que alugaram durante aquelas duas semanas que passaram ali. Era gordo e os cabelos não mais habitavam sua cabeça. Beirava os 50 anos, e sua aparência não escondia isso. Alemão por definição, Jaime era mulherengo e pai de quatro filhos – mas desses, só dois encontram-se na casa.
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A mesa de vidro improvisada para a canastra estava armada havia meia hora, com uma toalha de banho ainda úmida cobrindo-a – de modo que as cartas do baralho não deslizassem. Pacientemente, os três esperavam pelo quarto jogador – necessário para uma partida em duplas. Esse viria a ser a esposa de Jaime, Tereza, que cantava para a pequena Júlia dormir, no quarto do casal.
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Toda essa espera pelo quarto jogador seria desnecessária se Gonzalo, outro filho de Jaime, estivesse disposto a participar da partida. Estava desocupado, ouvindo música e cantando-a baixinho na rede da própria sacada.
- Eu não jogo mais com o pai! Se é pra jogar e ser criticado a cada movimento, ganho mais balançando-me aqui na rede. – defendia-se Gonzalo que, queira ou não, estava impedindo a diversão de outros três, ou pelo menos adiando-a.
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Hugo e Gabriel, pai e filho, eram os outros dois que esperavam junto a Jaime por um companheiro para o jogo de cartas. Hugo tinha por volta da mesma idade de Jaime, e Gabriel, a mesma de Gonzalo. Sim, eram famílias parecidas. Hugo lia um livro de contos de Mark Twain, emprestado por seu filho, enquanto esperava. Gabriel analisava calmamente cada carta do baralho.
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“A carta K só pode ser de King!”, pensava Gabriel, sentido-se estúpido por não ter percebido isso antes. Seguindo a mesma linha de raciocínio, concluiu que Q era de Queen. Agora temos um rei e uma rainha... Mas o J, o que será? Seu pai Hugo e Jaime chamavam-a de valete, mas Gabriel queria uma palavra que tivesse J como primeira letra, e em inglês – coincidindo assim com as outras duas já descobertas. Se viu obrigado a perguntar para seus companheiros ao redor.
- Afinal, que significa J? – perguntou.
- É valete. – respondeu Jaime, sem acrescentar nada a Gabriel.
- Mas, quero dizer... É a inicial de que?
- Não seria o Joker, o bôbo da corte? – era Gonzalo, que procurava ser de alguma ajuda.
- Fala baixo aí, seu bostão! – advertiu Jaime a seu filho, que estava a falar muito alto e, consequentemente, impedindo Júlia de dormir.
Gabriel analisou calmamente a carta valete, aproximando-a de seus olhos e concentrando-se em seu desenho.
- Não parece nem um pouco com o bôbo da corte. Está mais para um príncipe, soldado ou algo assim.
- Então essa é mais uma das questões que colocarei na minha lista de perguntas sem respostas – respondeu Gonzalo, com seu senso de humor primário. Gabriel esboçou um sorriso simpático.
Nesse momento, Tereza chegou." Um conto por Gabriel Hicikmann
Amanha se possivel reescreverei o capitulo 1 de "Um dia Após vinte Anos" e colocarei todos no mesmo post para falicitar a leitura.